Passaste meses a planear cada detalhe. O cliente aprovou tudo — cenografia, catering, alinhamento do programa. No dia do evento, reclamou de tudo.
Já viveste esta cena? Provavelmente a falha não foi logística.
Em 1936, Dale Carnegie publicou Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas — um livro que vendeu mais de 30 milhões de cópias e continua a ser recomendado por líderes de todo o mundo. O seu argumento central é simples: o sucesso profissional depende muito mais da forma como nos relacionamos com as pessoas do que do nosso conhecimento técnico.
Mas o que é que isso tem a ver com eventos?
Tudo. Um evento é, antes de mais, um exercício de relações humanas. Com clientes, fornecedores, equipas, patrocinadores e público. E a Parte 1 do livro — Técnicas Fundamentais para Lidar com Pessoas — é um manual de instruções que devia estar na gaveta de qualquer event planner.
Vamos então aos 3 princípios — e ao que significam no mundo real dos eventos.
Princípio 1: Não critique, não condene, não se queixe

O que Carnegie diz
A crítica é inútil porque coloca a pessoa na defensiva e faz com que se justifique. Em vez de corrigir, ressente. A crítica fere o orgulho, abala a autoestima e desperta ressentimento.
A realidade nos eventos
O fornecedor entregou as mesas fora do horário combinado. O técnico de som testou o equipamento à última hora. O assistente esqueceu-se de confirmar os acessos VIP.
Há um momento de tensão em que a primeira reação é criticar, condenar ou queixar-se — em voz alta, por email ou nos bastidores entre colegas.
Exemplo prático
Imagina que o catering chega 45 minutos atrasado numa gala com convidados à mesa. Podes explodir com o responsável — e garantir que a relação fica destruída, que a equipa deles fica desmotivada e que o resto do serviço é feito com ressentimento.
Ou podes dizer: “Precisamos de resolver isto agora — como podemos acelerar juntos?”
O problema é o mesmo. A solução é mais rápida com colaboração do que com confronto.
A dica aplicada: quando algo corre mal durante um evento, separa o momento da análise. Resolve primeiro, discute depois — e faz isso em privado, não em frente à equipa ou ao cliente.
Princípio 2: Mostre um apreço honesto e sincero

O que Carnegie diz
Há uma diferença fundamental entre adulação e apreço genuíno. A adulação é superficial e interessa apenas a quem a faz. O apreço sincero nasce de reconhecer verdadeiramente o valor do outro — e é um dos maiores motivadores humanos.
A realidade nos eventos
Trabalhamos com equipas sob pressão extrema. Montagens até às 3 da manhã, briefings em cima da hora, imprevistos constantes. E, no final, é raro alguém dizer “fizeste um excelente trabalho” — a não ser que algo corresse mal, claro.
Exemplo prático
O teu assistente de produção trabalhou 14 horas seguidas e garantiu que nenhum detalhe foi esquecido. Não digas apenas “bom trabalho” — esse é o elogio genérico que toda a gente ignora.
Diz: “A forma como geriste a coordenação de fornecedores hoje foi decisiva para o evento correr bem. Notei e agradeço.”
Específico, genuíno, memorável.
A dica aplicada: no final de cada projeto, faz um momento de reconhecimento individual com a tua equipa. Não tem de ser longo — basta ser honesto e específico. Isso constrói lealdade que nenhum bónus paga.
Princípio 3: Desperte na outra pessoa uma necessidade premente

O que Carnegie diz
A única forma de influenciar genuinamente alguém é falar sobre o que essa pessoa quer — não sobre o que tu queres. Toda a ação humana nasce de um desejo. Quem souber identificar e falar para esse desejo tem uma vantagem enorme.
A realidade nos eventos
Quantas vezes apresentamos uma proposta falando das nossas capacidades, dos nossos equipamentos, da nossa experiência — quando o cliente só quer saber uma coisa: “O que é que eu ganho com isto?”
O mesmo acontece com patrocinadores, fornecedores e até com os próprios convidados.
Exemplo prático
Estás a negociar com um patrocinador para um festival de música. Em vez de listares os metros quadrados de visibilidade e o número de inserções no programa, pergunta primeiro: “Qual é o vosso maior objetivo de marketing este ano?”
Se a resposta for “chegar a jovens entre os 18 e 25 anos”, toda a tua proposta passa a ser construída em torno disso. Deixas de vender um espaço — passas a vender uma solução.
A dica aplicada: antes de qualquer reunião com cliente ou patrocinador, prepara duas perguntas sobre os objetivos deles — não sobre o evento. As respostas vão moldar toda a tua proposta de valor.
A reflexão que fica

Carnegie não escreveu para event planners. Mas podia ter escrito. Porque a nossa profissão é, na sua essência, a arte de fazer as pessoas sentirem-se bem — antes, durante e depois de qualquer evento.
No fundo, os eventos mais memoráveis não são os que têm a produção mais impressionante — são os que fazem as pessoas sentirem-se vistas, valorizadas e compreendidas. Carnegie escreveu sobre isso em 1936. Ainda estamos a aprender.
Os princípios técnicos aprendem-se em cursos. Os princípios humanos aprendem-se com atenção às pessoas.
3 coisas que podes aplicar já esta semana
- Na próxima vez que um fornecedor errar, conta até 10 antes de reagir — e quando falares, começa por perguntar o que aconteceu, não por acusar.
- Envia um email de reconhecimento a alguém da tua equipa com um elogio específico sobre algo que fizeram bem esta semana.
- Antes da tua próxima reunião de proposta, prepara duas perguntas sobre os objetivos do cliente — e deixa-os falar durante pelo menos os primeiros 10 minutos.
Qual destes três princípios é o mais difícil de aplicar no teu dia a dia? Conta-me no Instagram — tenho a certeza que não és o único.